19 novembro, 2010

Thoreando...

Precisava disto. Fui reler, e decidi partilhar...


"...Contudo, deveríamos com mais assiduidade, olhar muito para além do corrimão do nosso navio, como passageiros curiosos, e não viajar como marujos tolos que passam o tempo de olhos fixos na estopa de calafate..."

"...Deixei os bosques por uma razão tão boa como aquela que para lá me levou. Talvez por  me ter parecido que tinha várias vidas para viver, não podendo desperdiçar mais tempo com aquela..." 
               (Como te entendo caro Thoreau)

"... Por que deveríamos nós correr desesperadamente atrás do sucesso, em empreendimentos desesperados? Se um homem não acerta o passo com os seus companheiros é porque talvez ouça um tambor diferente. Deixai-o marchar conforme a música que ouvir, ainda que lenta e distante..."

"...Por mais medíocre que seja a vossa vida, enfrentai-a e vivei-a; não a eviteis nem a injurieis. Ela não é tão aborrecida como vós o sois. Quanto mais ricos sois, mais pobre ela parece. Quem busca defeitos em tudo encontrará defeitos até no paraíso. Amai a vossa vida, por pobre que seja. Quem sabe se não podeis usufruir de horas agradáveis, emocionantes e gloriosas, mesmo num asilo de indigentes? O pôr-do-sol espelha-se nas janelas dos asilos tão radioso como nas da mansão do ricaço, e a neve derrete-se à porta de ambos no começo da Primavera. A meu ver, com paz de espírito pode-se viver lá com tanta satisfação e ter pensamentos tão estimulantes como num palácio. Os pobres da cidade parecem-me com frequência levar vidas mais independentes que quaisquer outros. Talvez pelo simples motivo de serem bastante nobres para receber sem desconfiança. Muitos julgam-se livres de ser sustentados pela cidade, mas o que sucede com maior frequência é que não estão livres de se sustentarem por meios desonestos, o que é bastante mais indecoroso. Cultivai a pobreza como um jardim de ervas, de salva. Não vos deis ao trabalho de arranjar coisas novas, quer sejam roupas ou amigos. Remendai as roupas usadas, retornai aos velhos amigos. As coisas não mudam, nós é que mudamos..."

"... Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade. Sentei-me a uma mesa onde a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas onde faltavam sinceridade e verdade, e com fome me fui embora do inóspito recinto. A hospitalidade era fria como os sorvetes. Pensei que nem havia necessidade de gelo para conservá-los. Gabaram-me a idade do vinho e a fama da safra, mas eu pensava num vinho muito mais velho, mais novo e mais puro, de uma safra mais gloriosa, que eles não tinham e nem sequer podiam comprar. O estilo, a casa com o terreno em volta e o "entretenimento" não representam nada para mim. Visitei o rei, mas ele deixou-me à espera no vestíbulo, comportando-se como um homem incapaz de hospitalidade. Na minha vizinhança, havia um homem que morava no oco de uma árvore e cujas maneiras eram régias. Teria feito bem melhor visitando-o a ele..."

"... A luz que ofusca os nossos olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos acordados. Mais dia está por raiar. O sol não passa de uma estrela matutina."


Excertos retirados da Conclusão do livro "Walden ou a vida nos bosques" de Henry David Thoreau.

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