Os poemas de Adília Lopes são, em sua maior parte, rápidas histórias domésticas, melancólicas anedotas metropolitanas, minificções íntimas, microbiografias irônicas, divertidos casos cotidianos ou breves comentários pitorescos, tudo isso pontilhado por irreverentes citações literárias. Nesses poemas convivem tranqüilamente, em pé de igualdade, personagens fictícias ao lado de reapresentações literárias de figuras reais do cânone universal...
Para falar de seus gatos, de suas baratas, da Cinderela, da Branca de Neve, da Bela Adormecida, do parque de diversões, de sua virgindade, de sua avó, de sua tia, de seu professor e de tantos outros assuntos íntimos, da maneira delicada e divertida, mas sempre inquietante, como só ela sabe fazer, a poeta não poderia cultivar a eloqüência da lírica mais pretensiosa e abstrata. Muito pelo contrário. Em vez da grandiloqüência, agora é a vez da miniloqüência, que Adília Lopes cultiva com talento e coragem. Em grande parte de seus poemas, a fronteira entre a lírica e a prosa foi completamente suprimida, a ponto de certas categorias específicas da ficção.
“A poesia existe tanto nos amores quanto nos chinelos”
A solidão mais funda, fruto da sensibilidade e da ilustração invulgares, e o sofrimento que brota do sentimento de inutilidade diante das forças primitivas que movem a sociedade, essa solidão e esse sofrimento são o princípio ativo da voz narrativa criada pela poeta. É esse descompasso emocional e intelectual que na obra de Adília Lopes encontra sua melhor expressão, sua melhor face, a face cômica. Mesmo quando não está falando de si mesma, mesmo quando não está usando a primeira pessoa para tratar de sua miséria interior, essa voz narrativa não abandona certos temas recorrentes da lírica portuguesa, especialmente o tópico da melancolia, do sofrimento heróico e do cansaço existencial. (...)
in Nelson de Oliveira, Revista CALIBÃN,n. 11
http://www.editoracaliban.com.br/revista/?p=52
Deus é a nossa mulher-a-dias
Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta
Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa
A ti tudo te foi dado
A ti tudo
te foi dado
e não tratas
os outros
com doçura
És um nababo
e és um nabo
(quem te dera
seres um nabo)
Se tu amas por causa da beleza, então não me ames!
Ama o Sol que tem cabelos doirados!
Se tu amas por causa da juventude, então não me ames!
Ama a Primavera que fica nova todos os anos!
Se tu amas por causa dos tesouros, então não me ames!
Ama a Mulher do Mar: ela tem muitas pérolas claras!
Se tu amas por causa da inteligência, então não me
ames!
Ama Isaac Newton: ele escreveu os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural!
Mas se tu amas por causa do amor, então sim, ama-me!
Ama-me sempre: amo-te para sempre!
Adília Lopoes, 2009
Sem comentários:
Enviar um comentário