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09 julho, 2011

Thomas Pynchon



Thomas Pynchon é um dos mais conceituados e originais escritores do séc. XX.
Embora no seu currículo já faça parte uma grande quantidade de prémios literários e várias citações como concorrente a Prémio Nobel, a verdade é que muito poucos são os que o conhecem ou que, pelo menos, saibam quem ele é.
Livros traduzidos para português são realmente difíceis de encontrar... felizmente já tive oportunidade de encontrar e comprar um livro do escritor. Encontra-se em lista de espera mas a curiosidade é elevada!
Thomas Pynchon

04 julho, 2011

A Grande Inteligência é Sobreviver

A grande Inteligência é sobreviver.
As tartarugas portanto não são teimosas nem lentas, dominam;
SIM, a ciência.
Toda a tecnologia é quase inútil e estúpida,
porque a artesanal tartaruga,
a espontânea TARTARUGA,
permanece sobre a terra mais anos que o homem.
Portanto,
como a grande inteligência é sobreviver,
a tartaruga é Filósofa e Laboratório,
e o Homem que já foi Rei da criação
não passa, afinal, de um crustáceo FALSO,
um lavagante pedante;
um animal de cabeça dura. Ponto.

Gonçalo M. Tavares, in "Investigações. Novalis"

02 julho, 2011

Enrique Barrios

acabei há pouco um dos primeiros livros deste senhor, escritor que leio pela primeira vez.
 "Ami, e o menino das Estrelas" de Enrique Barrios.
 Que livro!!!

A introdução prepara-nos bem para o seu conteúdo. Partilho (tradução em português do brasil) :

"É difícil aos dez anos de idade escrever um livro. Nesta idade ninguém entende muito de literatura... nem se interessa demais; mas eu vou ter que fazer isso, porque Ami disse que se eu o quisesse ver novamente deveria relatar em um livro o que eu vivi a seu lado.
Ele me advertiu que entre os adultos, muito poucos me entenderiam, porque para eles era mais fácil acreditar no terrível do que no maravilhoso.
Para evitar problemas ele me recomendou que dissesse que tudo era fantasia, uma história para crianças.
Eu vou obedecer-lhe ISTO É UMA HISTÓRIA.

Advertência
(destinada somente para adultos)
Não continue lendo, você não vai gostar, daqui em diante é maravilhoso
Destinado às crianças de qualquer nação desta redonda e bela pátria, esses futuros herdeiros e construtores de uma nova Terra sem divisões entre irmãos."
(...)

Podem ler aqui: link

21 junho, 2011

As Vestes

Foi a vez do tecelão perguntar: e as vestes?

- As vestes dissimulam grande parte da vossa beleza, mas não escondem o que não é belo.
E ainda que procureis nas vestes o abrigo da vossa intimidade, arriscai-vos a encontrar neles uma cadeia.
Antes encontrásseis o sol e o vento mais com a pele e menos com as vestes, porque o sopro da vida está no sol e a mão da vida está no vento.
Há entre vós quem diga: Foi o vento norte que teceu as vestes que trazemos.
Eu digo-vos: Sim, foi o vento norte, mas a vergonha foi o seu ofício e o amolecimento dos nervos o fio do seu tear, e quando acabou o trabalho desatou a rir na floresta.

Não esqueçais que o pudor não passa de um escudo contra os olhos impuros. E, desaparecido o impuro, que é o pudor senão um obstáculo e uma nódoa do espírito?

Não esqueçais que a terra se alegra ao sentir-vos descalços e que o vento gostaria de brincar com os vossos cabelos.

As Vestes
"O Profeta" de Khalil Gibran

13 junho, 2011

Pessoa

Para não fugir à regra do dia, cá fica uma lembrança de Fernando Pessoa:
(aproveitando o assunto do meu último post, sobre a temível Morte)

Já me não pesa tanto o vir da morte.
Sei já que é nada, que é ficção e sonho,
E que, na roda universal da Sorte,
Não sou aquilo que me aqui suponho.


Sei que há mais mundos que este pouco mundo
Onde parece a nós haver morrer - 
Dura terra e fragosa, que há no fundo
Do oceano imenso de viver.


Sei que a morte, que é tudo, não é nada
E que, de morte em morte, a alma que há
Não cai num poço: vai por uma estrada.
Em Sua hora e a nossa, Deus dirá.

Fernando Pessoa

13 abril, 2011

C. Lispector

"Pois que dedico esta coisa aí ao antigo Schumann e sua doce Clara que são hoje ossos, ai de nós. Dedico-me à cor rubra muito escarlate como o meu sangue de homem em plena idade e portanto dedico-me a meu sangue. Dedico-me sobretudo aos gnomos, anões, sílfides e ninfas que me habitam a vida. Dedico-me à saudade de minha antiga pobreza, quando tudo era mais sóbrio e digno e eu nunca havia comido lagosta.
Dedico-me à tempestade de Beethoven. À vibração das cores neutras de Bach. A Chopin que me amolece os ossos. A Stravinsky que me espantou e com quem voei em fogo. A "Morte e Transfiguração", em que Richard Strauss me revela um destino? Sobretudo dedico-me às vésperas de hoje e a hoje, ao transparente véu de Debussy, a Marlos Nobre, a Prokofiev, a Carl Orff, a Schönberg, aos dodecafónicos, aos gritos rascantes dos electrónicos a todos esses que em mim atingiram zonas assustadoramente inesperadas, todos esses profetas do presente e que a mim me vaticinaram a mim mesmo a ponto de eu neste instante explodir em : eu. Esse eu que é vós pois não aguento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, tão tonto que sou, eu enviesado, enfim que é que se há-de fazer senão meditar para cair naquele vazio pleno que só se atinge com a meditação. Meditar não precisa de ter resultados: a meditação pode ter como fim apenas ela mesma. Eu medito sem palavras e sobre o nada. O que me atrapalha a vida é escrever.E - e não esquecer que a estrutura do átomo não é vista mas sabe-se dela. Sei de muita coisa que não vi. E vós também. Não se pode dar uma prova da existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando. (...) "
Clarice Lispector
"A Hora da Estrela"
roubado aqui Inside-the-moon

09 abril, 2011

O Amor

Havia uma cidade em espanto linear a cavalo noutra cidade em geometria ambígua, um jardim era metade do outro, em que as pétalas andavam para trás e para diante, com o perfume trocado e o silêncio das cores tremendo no seu erro cheio de alvoroço florido, os arquitectos disseram: é preciso um novo espaço para estas duas pessoas que estão a pensar tanto com o corpo - e numa casa abria-se a porta que vigiava os corredores onde o pólen se acendia e dançava, e de repente a porta descerrava o espectáculo antigo do nascimento da lua num quarto escuro, via-se o que a lua sempre fez para trepar do soalho para o tecto pelas paredes docemente retardadas, era o tempo da seda entre os nossos vinte dedos embrulhados, e alguém escrevia à máquina num dos planos de intersecção urbana, e a frase escrita aparecia com o seu rumor externo noutro sitio, mas agora via-se no meio de uma clareira de silêncio vivo, e ia-se apreendendo a nossa mútua nudez colocada no sentido da frase, nós éramos essa cidade tremendamente posta em uso, em toda a parte estavam mãos em vez de garfos e lâmpadas, e a frase era assim: o amor, as mãos ininterruptas.

Herberto Hélder

26 março, 2011

EFÉMERO

Não viverei!
Não viverei que chegue
para amar,
tudo
o que há para amar.

Não viverei que chegue
para abraçar
tudo
o que contém um abraço.

Não viverei que chegue
para cheirar,
para rir e chorar,
para recordar...
tanto
que há para lembrar.

Não viverei para aprender
a língua dos pássaros,
o dialecto das árvores,
ou voar num dente-de-leão.

Não, não me chega o tempo,
para saber o gosto da luz do Sol,
entender o murmúrio do vento,
e a cantiga que traz a chuva.

Não viverei,
para saber de que
cor é o Branco.

Não viverei o tempo,
para chegar a entender
toda a Sabedoria do mundo,
escutar as palavras,
sons e melodias.

Levaram de mim a Eternidade
sem meu consentimento,
fiquei nas mãos do Tempo!

Para trás, o negro
e nos dedos,
o pó
que sobra das oferendas da Vida.

Não viverei, mas encurto os passos,
num caminho tecido de vagar,
para que caibam em mim
o Amor e os abraços,
o riso e as lágrimas,
as lembranças e memórias
as cores e os sabores,
os sons e os odores...
da sabedoria do meu mundo.

Não, não viverei...
e
não te concedo tréguas!

(Sentir e Ser - 2011)
GLIMPSE
http://serpenteemplumada.blogspot.com/

17 março, 2011

Agostinho

"Felizmente vou passando
a vida com alegria
não me dá sede o currículo
nem fome a filosofia."

Agostinho da Silva

23 fevereiro, 2011

Súmula


"Súmula" de Herberto Helder lido por José Luís Peixoto
Podem ler o poema completo aqui: link

09 fevereiro, 2011

"A Criança"

A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

Alberto Caeiro

17 janeiro, 2011

16 janeiro, 2011

neruda

Onde está a criança que fui,
vive dentro de mim ou morreu?

Sabe que eu nunca lhe quis
e ela também não me queria?

Porque andámos tanto tempo
a crescer para nos separarmos?

Porque não morremos os dois
quando a minha infância morreu?

E se a minha alma me deixou
porque me acompanha o esqueleto?


             Pablo Neruda
               "Livro das Perguntas, XLIV"

08 janeiro, 2011

O Operário em Construção

Um dia, uma amiga (obrigado mafalda) deu-me a conhecer este longo poema de Vinicius de Moraes:


E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

       

e eu gostei...

05 dezembro, 2010

Adília Lopes e o anedotário contemporâneo

Os poemas de Adília Lopes são, em sua maior parte, rápidas histórias domésticas, melancólicas anedotas metropolitanas, minificções íntimas, microbiografias irônicas, divertidos casos cotidianos ou breves comentários pitorescos, tudo isso pontilhado por irreverentes citações literárias. Nesses poemas convivem tranqüilamente, em pé de igualdade, personagens fictícias ao lado de reapresentações literárias de figuras reais do cânone universal...

Para falar de seus gatos, de suas baratas, da Cinderela, da Branca de Neve, da Bela Adormecida, do parque de diversões, de sua virgindade, de sua avó, de sua tia, de seu professor e de tantos outros assuntos íntimos, da maneira delicada e divertida, mas sempre inquietante, como só ela sabe fazer, a poeta não poderia cultivar a eloqüência da lírica mais pretensiosa e abstrata. Muito pelo contrário. Em vez da grandiloqüência, agora é a vez da miniloqüência, que Adília Lopes cultiva com talento e coragem. Em grande parte de seus poemas, a fronteira entre a lírica e a prosa foi completamente suprimida, a ponto de certas categorias específicas da ficção.

“A poesia existe tanto nos amores quanto nos chinelos”

A solidão mais funda, fruto da sensibilidade e da ilustração invulgares, e o sofrimento que brota do sentimento de inutilidade diante das forças primitivas que movem a sociedade, essa solidão e esse sofrimento são o princípio ativo da voz narrativa criada pela poeta. É esse descompasso emocional e intelectual que na obra de Adília Lopes encontra sua melhor expressão, sua melhor face, a face cômica. Mesmo quando não está falando de si mesma, mesmo quando não está usando a primeira pessoa para tratar de sua miséria interior, essa voz narrativa não abandona certos temas recorrentes da lírica portuguesa, especialmente o tópico da melancolia, do sofrimento heróico e do cansaço existencial. (...)

in Nelson de Oliveira, Revista CALIBÃN,n. 11
http://www.editoracaliban.com.br/revista/?p=52



Deus é a nossa mulher-a-dias

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a vida
porque achamos
que não presta

Deus é a nossa
mulher-a-dias
que nos dá prendas
que deitamos fora
como a fé
porque achamos
que é pirosa



A ti tudo te foi dado

A ti tudo
te foi dado
e não tratas
os outros
com doçura

És um nababo
e és um nabo
(quem te dera
seres um nabo)



Se tu amas por causa da beleza, então não me ames!
Ama o Sol que tem cabelos doirados!

Se tu amas por causa da juventude, então não me ames!
Ama a Primavera que fica nova todos os anos!

Se tu amas por causa dos tesouros, então não me ames!
Ama a Mulher do Mar: ela tem muitas pérolas claras!

Se tu amas por causa da inteligência, então não me
ames!
Ama Isaac Newton: ele escreveu os Princípios Matemáticos da Filosofia Natural!

Mas se tu amas por causa do amor, então sim, ama-me!
Ama-me sempre: amo-te para sempre!


Adília Lopoes, 2009

02 dezembro, 2010

"Canção de Amor"

"Como hei-de segurar a minha alma
para que não toque na tua? Como hei-de
elevá-la acima de ti, até outras coisas?
Ah, como gostaria de levá-la
até um sítio perdido na escuridão
até um lugar estranho e silencioso
que não se agita, quando o teu coração treme.
Pois o que nos toca, a ti e a mim,
isso nos une, como um arco de violino
que de duas cordas solta uma só nota.
A que instrumento estamos atados?
E que violinista nos tem em suas mãos?
Oh, doce canção."

Rainer Maria Rilke

30 novembro, 2010

"A Maior Flor do Mundo"


Enquanto "José e Pilar" se encontra em exibição pelo cinema e já que nos encontramos num ambiente de divulgação sobre José Saramago, aproveito para partilhar uma Curta-metragem de animação do único conto infantil de José Saramago, "A Maior Flor do Mundo".
Realizado pelo galego Juan Pablo Etcheverry, narrado pelo próprio José Saramago e com banda sonora de Emilio Aragón, esta Curta recebeu o Prémio de Melhor Animação do Anchorage Internacional Film Festival de Alaska, o Prémio Amigos da Música de Badalona para Melhor Música Original e em 2008 foi nomeada para o Prémio Melhor Curta-metragem de Animação nos Goya.
Teve também um grande êxito nos Festivais Mestre Mateo, Tokyo Global Environmental Film Festival e Festival Internacional de Cine Ecológico e Natureza de Canarias.

Desfrutem...

19 novembro, 2010

Fome - Knut Hamsun


Knut Hamsun (1859-1952), Prémio Nobel de Literatura em 1920, nasceu em Gudbrandsdalen e cresceu na pobreza em Hamaroy, na Noruega. Passou alguns anos da sua vida nos Estados Unidos da América, viajando e exercendo várias profissões.
A acção de "Fome" decorre nos finais do séc. XIX. O narrador, um jovem escritor, um homem solitário, deambula pelas ruas de Kristiania (actual Oslo) numa miséria extrema, enregelado pelo frio e tolhido pela fome. Essa miséria em que vive, provoca-lhe momentos de delírio e violentas variações de humor. Mas cedo nos apercebemos de que a " fome" desse sonhador não é apenas física...
Esta obra é considerada pela crítica como um marco da literatura moderna devido ao uso iconoclasta que faz do monólogo interior e à ruptura com a tradicional lógica interna do romance. Deixo na estante uma sugestão de leitura que muito me agradou.

Thoreando...

Precisava disto. Fui reler, e decidi partilhar...


"...Contudo, deveríamos com mais assiduidade, olhar muito para além do corrimão do nosso navio, como passageiros curiosos, e não viajar como marujos tolos que passam o tempo de olhos fixos na estopa de calafate..."

"...Deixei os bosques por uma razão tão boa como aquela que para lá me levou. Talvez por  me ter parecido que tinha várias vidas para viver, não podendo desperdiçar mais tempo com aquela..." 
               (Como te entendo caro Thoreau)

"... Por que deveríamos nós correr desesperadamente atrás do sucesso, em empreendimentos desesperados? Se um homem não acerta o passo com os seus companheiros é porque talvez ouça um tambor diferente. Deixai-o marchar conforme a música que ouvir, ainda que lenta e distante..."

"...Por mais medíocre que seja a vossa vida, enfrentai-a e vivei-a; não a eviteis nem a injurieis. Ela não é tão aborrecida como vós o sois. Quanto mais ricos sois, mais pobre ela parece. Quem busca defeitos em tudo encontrará defeitos até no paraíso. Amai a vossa vida, por pobre que seja. Quem sabe se não podeis usufruir de horas agradáveis, emocionantes e gloriosas, mesmo num asilo de indigentes? O pôr-do-sol espelha-se nas janelas dos asilos tão radioso como nas da mansão do ricaço, e a neve derrete-se à porta de ambos no começo da Primavera. A meu ver, com paz de espírito pode-se viver lá com tanta satisfação e ter pensamentos tão estimulantes como num palácio. Os pobres da cidade parecem-me com frequência levar vidas mais independentes que quaisquer outros. Talvez pelo simples motivo de serem bastante nobres para receber sem desconfiança. Muitos julgam-se livres de ser sustentados pela cidade, mas o que sucede com maior frequência é que não estão livres de se sustentarem por meios desonestos, o que é bastante mais indecoroso. Cultivai a pobreza como um jardim de ervas, de salva. Não vos deis ao trabalho de arranjar coisas novas, quer sejam roupas ou amigos. Remendai as roupas usadas, retornai aos velhos amigos. As coisas não mudam, nós é que mudamos..."

"... Mais que amor, dinheiro e fama, dai-me a verdade. Sentei-me a uma mesa onde a comida era fina, os vinhos abundantes e o serviço impecável, mas onde faltavam sinceridade e verdade, e com fome me fui embora do inóspito recinto. A hospitalidade era fria como os sorvetes. Pensei que nem havia necessidade de gelo para conservá-los. Gabaram-me a idade do vinho e a fama da safra, mas eu pensava num vinho muito mais velho, mais novo e mais puro, de uma safra mais gloriosa, que eles não tinham e nem sequer podiam comprar. O estilo, a casa com o terreno em volta e o "entretenimento" não representam nada para mim. Visitei o rei, mas ele deixou-me à espera no vestíbulo, comportando-se como um homem incapaz de hospitalidade. Na minha vizinhança, havia um homem que morava no oco de uma árvore e cujas maneiras eram régias. Teria feito bem melhor visitando-o a ele..."

"... A luz que ofusca os nossos olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos acordados. Mais dia está por raiar. O sol não passa de uma estrela matutina."


Excertos retirados da Conclusão do livro "Walden ou a vida nos bosques" de Henry David Thoreau.

14 novembro, 2010

José e Pilar


Realizado pelo português Miguel Gonçalves Mendes e dos mesmos produtores de "Cidade de Deus" e "Fala com Ela", José e Pilar é um documentário que mostra a relação entre o escritor (José Saramago) e sua esposa, Pilar Del Río.
Já ganhou prémios internacionais e vai estrear nas salas portuguesas a 18 de Novembro.