11 janeiro, 2011

desabafo

Nada como acordar às 9 da manhã ao som de uma motosserra mesmo pertinho do nosso quarto.
Não há colunas ou despertador que supere o som da motosserra. Obriga-nos mesmo a levantar da cama, é infalível. 


Continua, continua...


E agora são duas... que manhã harmoniosa!

10 janeiro, 2011

Music Painting


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09 janeiro, 2011

08 janeiro, 2011

Patriotismo político num Portugal esquecido

"Há três realidades sociais - o indivíduo, a Nação, a Humanidade.(…)

A Humanidade é outra realidade social tão forte como o indivíduo, mais forte que a Nação, porque mais defenida do que ela (…). É através da fraternidade patriótica, fácil de sentir a quem não seja degenerado que gradualmente nos sublimamos ou sublimaremos, até à fraternidade com todos os homens. (…) A Nação é a escola presente para a Super-Nação futura. Cumpre, porém, não esquecer que estamos ainda e durante séculos estaremos na escola e só na escola.

Se intensamente patriota é três coisas: é primeiro, valorizar em nós o indivíduo que somos e fazer o possível por que se valorizem os nossos compatriotas, para que assim a Nação, que é a suma viva dos indivíduos que a compõem, e não o amontoado de pedras e areia que compõem o seu território, ou a colecção de palavras separadas ou ligadas de que se forma o seu léxico ou a sua gramática - possa orgulhar-se de nós, que, porque ela nos criou, somos seus filhos, e seus pais porque a vamos criando."

Fernando Pessoa

nostalgia

Hoje dei com o meu antigo pager/bip, aparelho que foi bastante popular nos anos 80/90. 
Nem imaginam a alegria que senti quando me ofereceram um aparelho destes.


Não me recordo ao certo, mas provavelmente, pouco me serviu na altura...
Tontices!

O Operário em Construção

Um dia, uma amiga (obrigado mafalda) deu-me a conhecer este longo poema de Vinicius de Moraes:


E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
– Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
– Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

       

e eu gostei...

04 janeiro, 2011

Fim de Ano, Início de Quê?

Hoje é o último dia do ano. Nele se enviam, recebem, agradecem e reenviam mensagens de Feliz Ano Novo. Assim o fizeram milhões de seres humanos nos anos passados, assim o continuarão a fazer milhões de seres humanos nos anos futuros. É a rotina habitual, com a melhor das intenções. Entretanto, apesar dos votos que fazemos, todos nós continuamos a ser cúmplices na degradação da vida e do planeta. Por pensamentos, palavras, acções e omissões, movidos pela ilusão, a avidez e o ódio ou estagnados pela indiferença, contribuímos directa ou indirectamente para a ignorância, o sofrimento e a injustiça que alastram sobre o mundo e vitimam os seres vivos, humanos e não humanos, nossos companheiros na aventura da existência. Pelo simples facto de existirmos, interagirmos e nos movermos, pelo vestuário, alimentação, produtos, bens e serviços que consumimos – e mesmo que sejamos vegetarianos ou veganos, não usemos senão roupa de origem vegetal ou sintética, não gostemos de touradas e sejamos activistas a favor dos direitos de todos os seres - , contribuímos directa ou indirectamente para o sofrimento e morte de biliões de insectos, lagartas e outros animais (no cultivo e recolha de plantas, frutos e vegetais), bem como para o sofrimento e a exploração do trabalho de milhões de seres humanos (não só na China, mas por todo o mundo, incluindo em Portugal). Isto para já não falar do CO2 que as nossas viagens inúteis e fúteis lançam para a atmosfera e dessas outras emissões, infinitamente mais venenosas, as dos nossos pensamentos e emoções destrutivos. Sim, pode não ser simpático dizê-lo, mas a realidade não existe para ser simpática: ninguém é inocente. É salutar recordá-lo, para abdicarmos de presunções de pureza, virtude e santidade e deixarmos de julgar e diabolizar os outros. Todos nós somos predadores, que deixamos uma funda pegada ecológica onde quer que estejamos.

Cabe recordar isto, para avaliarmos a infinita dívida que a cada instante contraímos em relação a tudo e todos e pensarmos como a podemos pagar e compensar. Tudo depende do sentido que dermos às nossas vidas, pensamentos, palavras e acções. Tudo depende se fazemos desta nossa brevíssima passagem pelo mundo algo que o deixe um pouco melhor do que antes, semeando e cultivando nele um bem maior do que aquele mal que pelo simples facto de existirmos lhe trazemos.

Vivemos e viveremos cada vez mais grandes dificuldades a nível mundial. O paradigma do progresso enquanto ilimitado crescimento económico e incontrolado usufruto dos recursos naturais e dos seres vivos pela espécie humana, surgido há uns séculos na Europa e hoje globalizado, conhece um espectacular fracasso, pela incapacidade de resolver os grandes problemas e inquietações da humanidade, pelo aumento do fosso entre os que vivem acima e abaixo das suas necessidades, pela destruição crescente da biodiversidade e pela gravíssima crise ecológica. Disto começa a ser consciente um crescente número de pessoas e instituições nos países mais “desenvolvidos”, mas o mesmo não acontece nos países em vias de “desenvolvimento” e nas novas potências emergentes, que desejam seguir o mesmo caminho ilusório e já morderam o isco envenenado do poder e da riqueza aparentes e imediatos.

Perante isto, e perante o silenciamento e indiferença da maioria dos responsáveis políticos e religiosos mundiais, que preferem continuar a adormecer-nos e a adormecer-se com a retórica da esperança de melhores dias, somos todos nós que temos a responsabilidade de cooperarmos na busca de um novo paradigma. Esse paradigma tem de passar pela compreensão e vivência da realidade como uma totalidade orgânica e complexa, onde todos os seres e ecossistemas são interdependentes, não podendo pensar-se o bem de uns em detrimento de outros e da harmonia global. Há que, para bem do próprio homem, superar o antropocentrismo numa visão holística da Vida, em que o ser humano se assuma não como o dono do mundo, com o direito de o explorar e aos seus habitantes a seu bel-prazer, mas como o responsável pelo equilíbrio ecológico do planeta e pelo direito de todos os seres vivos à vida e ao bem-estar.

Não assumindo esta responsabilidade, não respeitando a Terra e a grande comunidade dos viventes, a humanidade não se respeita a si mesma e lesa os próprios interesses. Assim o mostram os efeitos dramáticos da alimentação e da vida antinatural que levamos sobre a nossa saúde psíquica e física, a par do terrível e desnecessário sofrimento causado a milhões de animais, que criamos e engordamos à pressa em gigantescos campos de concentração para alimentarmos o Holocausto do nosso apetite e da ganância insaciável dos produtores. Mas isto não se faz sem consequências. Por mais que as silenciem, elas vem ao de cima e estão aí. A agropecuária intensiva é o sector mais poluente, responsável por 18% das emissões de gases com efeito de estufa que produzem o aquecimento global, sendo igualmente o sector que mais água necessita, estando a esgotar os caudais em todo o mundo (só nos EUA mais de metade da água é usada para produzir ração para o gado; a par disso, a água restante é contaminada pelos resíduos animais); daí estimar-se que, em 2025, 64% da população mundial se veja privada da água necessária e já se anunciem as futuras guerras pela água… (cf. Harald Welzer, Klimakriege, 2008). A agropecuária intensiva é ainda a grande responsável pela desertificação e desflorestação, sendo 70% do solo agrícola mundial usado para alimentar animais. Disso resulta ser também a grande responsável pela perda da biodiversidade. A par de tudo isto, a produção e consumo massivos de carne industrial contribuem directamente para a fome no mundo, pois só a produção agrícola destinada aos animais nos EUA daria para alimentar 800 milhões de pessoas!...

Apocalipse Now não é apenas o nome de um filme. Necessitamos urgentemente de despertar e de um novo rumo. Enquanto podemos, pois já se vai fazendo muito tarde. Melhor é mudar voluntariamente do que ser obrigado à força.

Há que estabelecer uma Nova Aliança com a Terra e os seres vivos. E já.


PAULO BORGES
http://serpenteemplumada.blogspot.com

desabafo

As saudades que eu tinha de pensar: 

                                 "O que me apetece fazer agora?"

01 janeiro, 2011

1.1.11