Sentada defronte a dezasseis polegadas de brilho e estímulos visuais,
Teclando sofregamente letras que se resumem a sequências de zeros e uns,
Confere-me a alegria de as ver ganhar vida.
Vida – manancial panteísta de convenções humanas – é ciência!
Ser intersectada por cinco vezes dez elevado a treze neutrinos solares
Por segundo, viajando a três vezes dez elevado a oito metros por segundo,
E poder senti-los a todos, um a um, sem desprimor por nenhum!
Saber que eles interagem de forma tão subtil, inócua e enigmática
Que, quanto mais fraca for a interacção, maior será o desejo
De descortinar todas as suas particularidades.
Desejo esse diferente do das coisas e pessoas mundanas.
Ainda bem que não somos eternos!…
(Quando a tabuleta da tabacaria que Campos frequentara desaparecer
E os versos que aqui deixou enternecerem
Quando a língua que partilhamos perecer
E o sol aglutinar tudo o que encontrar à sua passagem,
Reduzindo a humanidade a escombros,
Um sossego metafísico assenhorar-se-á do vácuo;
Uma profusão de explosões invadirá este pedaço de matéria
Onde outrora Platão, Arquimedes, Descartes, Newton, Bohr, Einstein…
Espalharam a magia, que só Caeiro (não) consegue, objectivamente, ver.
E, no fim, que sentido tem tudo isto a mais que a vida de Sísifo?)
Mas, Ah!, Poder unir todas as forças!
Forte, fraca, electromagnética, gravitacional.
Poder ser bomba atómica de conhecimento científico!
Penumbra de um qualquer fim de dia exasperante numa cidade cosmopolita…
Poluente atmosférico causador de doenças respiratórias,
Fungo, bactéria, vírus…
Só para poder ser objecto de estudo e ser, parcial ou totalmente, aniquilada
Por uma qualquer substância feita da mesma matéria que eu!
Oiço a distorção de uma guitarra induzida por um pedal caprichoso
Amplificada na sala de ensaios de um qualquer grupo musical intimista;
Oiço os graves de um baixo diletante:
Tum----tum-tum-tum-tum-tum-tum----tum…
E imagino a variação da força electromotriz ao longo do tempo,
As curvas do gráfico de variável contínua desse sinal analógico.
Ai, fitar a capa de The Dark Side of the Moon e, com gáudio,
Poder explicar a separação das cores no prisma dispersivo
À luz das leis da óptica!
Ler sobre a tua Vénus do Nilo e a axiomática probabilística
Que poucos compreendem, mas muitos têm a possibilidade
De gozar dos seus predicados (embora a probabilidade seja diminuta),
Eleva exponencialmente o grau de beleza a valores que roçam o infinito.
Recriar as tuas sinapses deixa-me num estado libidinal
Que só Freud saberia explicar com precisão!
Cada impulso nervoso traduzido nessas linhas de arte que nos deixaste
Faz-me quase desejar embeber a tua natureza metafísica morta.
No entanto, não és tu quem quero nem tão-pouco a tua metafísica…
Eu apenas queria esponjar-me nas tuas sinapses! Eu apenas queria dissecar os teus nervos!
Eu apenas queria os teus órgãos (todos à excepção do coração)!
Eu apenas queria sentir a pressão do teu sangue tenaz!
Eu apenas queria vestir a tua epiderme, contando todas as células!
Eu apenas quero as tuas ossadas, desejando febrilmente que estas fossilizem
E que as lágrimas do teu decadentismo se perpetuem no âmbar da vida!
Ó Álvaro, poder copiar cada átomo da tua existência até ao último pixel!
Ser tu… ou tua… Ser, enfim…
O teu ópio!…
Rita Isabel Sousa Costa